Uma investigação da BBC News
Brasil acendeu um alerta importante para o setor habitacional do país:
apartamentos financiados com subsídio público pelo programa Minha Casa, Minha
Vida estão sendo desviados de sua finalidade e transformados em unidades de aluguel
de curta temporada no Airbnb. Desvirtuando totalmente do propósito original que
tem como meta a moradia para famílias de baixa renda. O caso se concentra em
São Paulo, mas o debate já chegou ao Rio de Janeiro, e vale a pena entender o
que está em jogo. A
Protel falou sobre o tema no Protel Summit, realizado em agosto de 2025.
O que revelou a investigação
Repórteres da BBC visitaram
edifícios em bairros centrais de São Paulo erguidos com incentivos fiscais da
prefeitura para moradias populares, as chamadas Habitações de Interesse Social
(HIS) e que também permitem financiamento pelo Minha Casa, Minha Vida. Em
visitas gravadas com câmera escondida, um corretor chegou a estimar que, em
alguns prédios da construtora para a qual trabalhava, até metade dos
apartamentos estaria anunciada no Airbnb, funcionando como hospedagem
temporária em vez de moradia.
O esquema é simples e lucrativo:
o comprador financia o imóvel com juros subsidiados pelo governo, que podem
representar uma economia de quase R$ 200 mil no valor final, e depois coloca a
unidade para alugar por temporada. Em alguns casos, a renda mensal chegava a R$
8 mil, quase R$ 6 mil a mais do que a parcela do próprio financiamento. Uma
diferença que transforma o subsídio público em negócio privado.
A reportagem ainda detectou outra
brecha: a prática de registrar o imóvel no nome de um terceiro com renda dentro
das faixas do programa para depois transferir a propriedade ao investidor real.
Segundo o Ministério Público de São Paulo, essa conduta pode configurar crimes
de falsidade ideológica e estelionato.
A omissão no regulamento
federal
Ao ser questionado pela BBC, o
Ministério das Cidades confirmou que apenas beneficiários da Faixa 1 (famílias
com renda de até R$ 2.850) têm obrigação legal de residir no imóvel financiado.
Para as demais faixas, que chegam até R$ 12 mil mensais, não existe essa
restrição formal. Ou seja, nas faixas superiores, um beneficiário pode
financiar um apartamento com juros subsidiados pela Caixa e nunca morar nele um
único dia.
Os números mostram que o paradoxo
é real. Segundo a Fundação João Pinheiro, o número de pessoas sem moradia
adequada na Região Metropolitana de São Paulo cresceu de 570 mil, em 2016, para
605 mil em 2023, mesmo período em que houve um enorme boom de construção de
unidades populares na cidade.
A reação de São Paulo — e o
que falta ao Rio
Em maio de 2025, a Prefeitura de
São Paulo reagiu publicando o Decreto nº 64.244/25, que proibiu o uso de
unidades HIS e HMP (Habitação de Mercado Popular) para locações de curta
temporada via plataformas como o Airbnb. O Ministério Público paulista informou
à BBC que investiga mais de 8.300 possíveis fraudes em compras de habitações de
interesse social ocorridas entre março e outubro de 2025. Já foram aplicadas
704 notificações e 38 multas, totalizando R$ 39 milhões em penalidades.
No Rio de Janeiro, o debate ainda
está em curso. A Câmara Municipal instituiu, em março de 2025, uma Comissão
Especial para discutir a regulamentação do aluguel por curta temporada, a
partir do Projeto de Lei nº 107/2025. A proposta prevê a exigência de autorização
do condomínio para exploração via plataformas digitais e restrições de área. Especialmente
na Zona Sul, onde mais de 21 mil imóveis já são ofertados por plataformas como
o Airbnb. O projeto ainda está em discussão e deve passar por audiências públicas
antes de ser votado.
Diferentemente de São Paulo, o
Rio ainda não adotou regras específicas para proteger unidades de habitação
popular do desvio de finalidade para o aluguel de temporada. Com o crescimento
acelerado do turismo e a forte presença do Airbnb na cidade, o risco de que
práticas semelhantes às documentadas em São Paulo se disseminem aqui é real.
O que isso significa para os
condomínios cariocas
Para síndicos, condôminos e
administradoras, a investigação da BBC levanta questões práticas e urgentes. A
alta rotatividade de hóspedes temporários em um condomínio residencial traz
consequências diretas: aumento de uso das áreas comuns, dificuldade de controle
de acesso, maior desgaste das instalações, e riscos à segurança e ao sossego
dos moradores permanentes.
Além disso, decisões do Superior
Tribunal de Justiça (STJ) já reconhecem que a proibição do Airbnb em
condomínios é possível, desde que prevista expressamente na Convenção de
Condomínio. No Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), há precedentes em sentidos
opostos, o que reforça a importância de cada condomínio ter sua convenção
atualizada e clara sobre o tema.
O que os condomínios podem
fazer agora:
A reportagem da BBC News Brasil
expôs uma falha sistêmica que vai além de São Paulo. Ela revela como brechas
legais e a ausência de fiscalização eficiente podem subverter políticas
públicas pensadas para quem mais precisa, e criar problemas concretos no
cotidiano dos condomínios. No Rio de Janeiro, o momento é de atenção e preparo.
Na Protel, estamos de olho em
todas as mudanças regulatórias que impactam a gestão condominial. Se você tem
dúvidas sobre como proteger seu condomínio, entre em contato com nossa equipe.
Fonte: BBC News Brasil. Adaptado para o contexto do Rio
de Janeiro pela equipe Protel Administração de Condomínios.