Morar em condomínio nunca foi tarefa simples. Dividir paredes, corredores, elevadores e áreas comuns com pessoas de diferentes personalidades, que não escolhemos como vizinhos, já é, por si só, um exercício diário de tolerância e negociação. Mas quando colocamos na mesma equação idosos que acordam às cinco da manhã, jovens que chegam em casa depois da meia-noite, crianças que transformam o corredor em campo de futebol e famílias inteiras que disputam a churrasqueira todo fim de semana, o cenário ganha uma complexidade que síndicos e administradoras conhecem bem, e que ainda está longe de ter uma fórmula pronta de solução.
O Brasil envelheceu. E envelheceu rápido. Segundo dados do IBGE, o país já conta com mais de 32 milhões de pessoas acima dos 60 anos, e a projeção é de que esse número ultrapasse os 70 milhões até 2060. Ao mesmo tempo, o mercado imobiliário viu crescer a demanda por apartamentos compactos, os chamados studios e kitnetes, atraindo um público jovem, solteiro, com rotina intensa e padrão de comportamento completamente diferente do morador mais antigo, que muitas vezes está no mesmo edifício há décadas. Esse encontro de mundos dentro de um mesmo condomínio é inevitável. A questão é saber como administrá-lo.
Não existe vilão nessa história, e esse é exatamente o ponto mais delicado. O idoso que reclama do barulho às 22h não está sendo antiquado: ele tem direito ao sossego garantido tanto pelo regimento interno quanto pela legislação vigente. O jovem que chega animado de uma confraternização com amigos não está sendo irresponsável: ele também pagou seu condomínio em dia e tem o direito de usar o espaço que é dele. A criança que corre pelo corredor não é mal-educada: ela é criança. O problema não está nas pessoas, está na ausência de mediação e de regras claras que consigam contemplar perfis tão distintos de moradores.
Síndicos que trabalham há anos na gestão condominial relatam que as queixas relacionadas a conflitos entre gerações estão entre as mais frequentes, e as mais difíceis de resolver. Isso porque, diferente de uma goteira ou de uma falha no sistema de interfone, esse tipo de conflito envolve comportamentos, hábitos e expectativas que cada morador carrega como parte da sua identidade. Pedir que alguém mude quem é, no limite, é muito mais invasivo do que pedir que conserte uma torneira.
A área de lazer costuma ser o principal palco desses embates. A piscina que o aposentado quer usar em silêncio na segunda-feira de manhã é a mesma que a família quer ocupar com as crianças no sábado à tarde. A academia que o jovem profissional usa às 6h30 antes do trabalho é a mesma que o idoso gostaria de frequentar com calma às 9h, sem barulho excessivo e sem pressa. A churrasqueira reservada para o aniversário de uma criança pode coincidir, em tom e horário, com a necessidade de descanso de um morador que acabou de voltar de uma cirurgia. Nenhum desses cenários é absurdo. Todos são legítimos. E é justamente essa legitimidade simultânea que torna o conflito tão espinhoso.
Após a pandemia de Covid-19 incorporou-se à receita da convivência um ingrediente extra para essa equação. Com o trabalho remoto, o condomínio deixou de ser apenas o lugar onde as pessoas dormem e passou a ser também o lugar onde trabalham, estudam, se exercitam e socializam, muitas vezes ao mesmo tempo e no mesmo espaço. O vizinho que antes saía às 8h e voltava às 19h agora está ali o dia todo, e a convivência, que antes era limitada a encontros rápidos no elevador, passou a ser intensa e constante. Os registros de conflitos em condomínios dispararam nesse período, e muitos síndicos precisaram improvisar soluções para tais situações.
Diante desse cenário, o papel do síndico ganhou uma dimensão que vai muito além da gestão de contratos e da manutenção predial. É preciso ser, em alguma medida, um mediador de relações humanas. E isso exige habilidade, preparo e, principalmente, imparcialidade. O síndico que toma partido, seja do morador mais antigo, seja do mais jovem, perde autoridade e agrava o problema. O caminho é sempre o diálogo estruturado, preferencialmente antes que o conflito escale para registros em cartório, ações judiciais ou assembleias tensas que viram palco de constrangimentos públicos.
A tecnologia também tem dado sua contribuição. Aplicativos de gestão condominial, como o Condomob, que é disponibilizado gratuitamente aos clientes da Protel, permitem que moradores façam reservas de espaços, registrem ocorrências e acompanhem as deliberações da administração de forma transparente e rastreável. Isso reduz ruídos de comunicação e diminui a sensação de injustiça. Ninguém consegue “furar a fila” da churrasqueira se o sistema de reservas é digital e auditável, e dá ao síndico um registro documental que pode ser fundamental em caso de disputa.
Mas nenhuma tecnologia substitui o básico: um regimento interno atualizado, claro e aplicado com consistência. Muitos condomínios ainda operam com documentos escritos há décadas, que não contemplam realidades como o home office, os aplicativos de delivery com entregadores chegando a qualquer hora, as festas transmitidas ao vivo pelas redes sociais ou o uso de patinetes elétricos nos corredores. Atualizar esse documento, com participação dos moradores e orientação jurídica adequada, é um passo fundamental para que as regras façam sentido para todos, e possam ser cobradas com legitimidade.
O choque de gerações dentro dos condomínios não vai desaparecer. Ele é, na verdade, reflexo de uma sociedade cada vez mais diversa, longeva e com padrões de comportamento em constante transformação. O que pode mudar, e precisa mudar, é a forma como essa diversidade é administrada. Condomínios que investem em gestão profissional, comunicação eficiente e cultura de convivência tendem a ter não apenas menos conflitos, mas moradores mais satisfeitos, maior valorização dos imóveis e uma comunidade que consegue fazer da convivência uma experiência boa para todos os lados.
No fim das contas, o condomínio é um microcosmo da cidade. E aprender a conviver com quem é diferente de nós em idade, em hábitos e em rotina, talvez seja o exercício de cidadania mais concreto que temos disponível no dia a dia. Começa ali, naquele corredor, naquele elevador, naquela área de lazer que todo mundo quer usar ao mesmo tempo.