Vale a pena utilizar placa de energia solar na casa de bombas?
Recebemos essa sugestão de pauta de um morador de um dos condomínios que administramos através do “O que você quer ler no blog”. A ideia, ao que parece, é buscar economia também nesse segmento. Resolvemos analisar esta temática, uma vez que condomínios utilizam diariamente as bombas de recalque para transferir água dos reservatórios inferiores para os superiores.
Como funciona uma bomba de recalque?
A bomba de recalque é acionada por uma boia ou sensor de nível que detecta quando o reservatório superior está abaixo de determinado nível. Ela então entra em funcionamento para puxar a água da cisterna e levá-la até a caixa d’água elevada. Em condomínios de médio e grande porte, esse ciclo se repete diversas vezes ao longo do dia, e também durante a madrugada, de forma automática.
A potência dos equipamentos varia bastante: em prédios menores, é comum encontrar bombas de 1 a 2 CV. Já em condomínios com muitas unidades ou torres altas, podem chegar a 5 CV ou mais. Quanto maior a potência e mais horas de funcionamento, maior o consumo elétrico e, consequentemente, maior o potencial de economia com energia solar.
Por que a bomba pesa tanto na conta de energia?
Em um condomínio com quatro torres e seis andares cada, por exemplo, pode haver duas ou mais bombas em operação simultânea. Cada bomba de 2 CV consome aproximadamente 1,5 kWh por hora de funcionamento. Se ela operar em média seis horas por dia, o consumo mensal de uma única bomba fica em torno de 270 kWh. Multiplique isso pelo número de equipamentos e a conta pode facilmente representar de 15% a 30% da fatura de energia das áreas comuns.
Para tornar o cálculo mais concreto: um condomínio com duas bombas de 2 CV, operando seis horas por dia, consome cerca de 540 kWh mensais só com recalque. Com a tarifa residencial média no Brasil em torno de R$ 0,85 por kWh, isso representa aproximadamente R$ 459,00 por mês, ou quase R$ 5.500,00 por ano apenas com bombas.
Como a energia solar entra nessa equação?
Os sistemas fotovoltaicos captam a luz solar por meio de painéis e a convertem em energia elétrica. No modelo mais comum para condomínios, o sistema é conectado à rede elétrica, o chamado sistema on-grid. A energia gerada é consumida no local e o excedente é injetado na rede, gerando créditos junto à distribuidora. Esse mecanismo é regulado pela resolução normativa ANEEL 482/2012 e atualizado pelo marco legal da microgeração distribuída, a Lei 14.300/2022.
Para alimentar especificamente a casa de bombas, o sistema pode ser dimensionado de forma direcionada, o que reduz o custo total de implantação em comparação com um projeto que atende todo o condomínio.
O ponto crítico: as bombas funcionam à noite
Este é o aspecto mais importante a ser considerado. Diferente da iluminação e de equipamentos de uso diurno, as bombas de recalque funcionam em ciclos automáticos, inclusive de madrugada, quando não há geração solar. Isso significa que o modelo ideal para este caso é o sistema on-grid com compensação de créditos, e não um sistema isolado com baterias, que tornaria o investimento inviável economicamente.
No sistema on-grid com compensação, durante o dia os painéis geram energia que é consumida pelo condomínio, e o excedente vai para a rede elétrica, gerando créditos. Esses créditos são usados para abater o consumo noturno das bombas e de outros equipamentos. O resultado líquido é uma redução real na fatura, mesmo sem baterias. Vale destacar que, desde a Lei 14.300/2022, os créditos de energia têm validade de 60 meses e podem ser utilizados em qualquer horário do dia.
Como dimensionar corretamente o sistema?
O dimensionamento adequado é a chave para um projeto rentável. Não adianta instalar painéis demais, o que desperdiça investimento, nem de menos, o que gera economia insuficiente. Um bom projeto começa pelo levantamento do consumo histórico das áreas comuns, com identificação da parcela atribuída às bombas.
Com esse dado em mãos, uma empresa especializada calcula o número de painéis necessários levando em conta o índice de irradiação solar da cidade, disponível no Atlas Brasileiro de Energia Solar, do INPE —, a orientação e inclinação do telhado ou área disponível, e eventuais sombreamentos. Ao solicitar orçamentos, é fundamental pedir a simulação de geração mensal estimada, a projeção de economia na fatura, o payback detalhado com premissas claras, a especificação dos equipamentos com marca e garantia, a ART (Anotação de Responsabilidade Técnica) do projeto e a documentação necessária para homologação junto à distribuidora local.
Quanto custa e qual o retorno esperado?
Um sistema fotovoltaico voltado à casa de bombas de um condomínio médio pode variar entre R$ 20.000 e R$ 50.000, dependendo da potência instalada, dos equipamentos escolhidos e da complexidade da instalação elétrica existente. Esse investimento pode ser rateado entre as unidades como obra de melhoria ou financiado por linhas de crédito específicas para energia solar disponíveis em bancos como Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e diversas instituições privadas.
Com uma economia mensal de R$ 400 a R$ 800 apenas no recalque, o retorno do investimento costuma ocorrer entre cinco e sete anos. Considerando que os painéis têm vida útil de 25 anos com manutenção mínima, o período de geração de economia livre chega a 18 ou 20 anos após o payback, o que representa uma rentabilidade muito superior à da poupança ou do CDI para esse horizonte de tempo.
Aspectos legais e condominiais
A instalação de um sistema fotovoltaico em condomínio exige aprovação em assembleia, por se tratar de benfeitoria de caráter permanente. A administradora deve preparar uma apresentação clara com o projeto técnico, orçamentos comparativos, simulação financeira e a forma de custeio prevista. Quanto mais transparente e embasada for a proposta, maior a chance de aprovação pelos condôminos.
Após a aprovação, a instaladora fica responsável pelo projeto elétrico, pela obtenção da ART e pelo processo de homologação junto à distribuidora de energia local, etapa obrigatória para que o sistema de compensação funcione de forma legal.
Então, compensa?
Sim, compensa, desde que o projeto seja bem dimensionado, a instaladora seja idônea e o sistema adotado seja o on-grid com compensação de créditos. O investimento inicial existe, mas os números de retorno são sólidos e previsíveis. Para condomínios com bombas de maior potência e alto consumo nas áreas comuns, esta pode ser uma das decisões com melhor custo-benefício disponíveis hoje no mercado de eficiência energética. Se você é síndico ou mora em um condomínio que ainda não avaliou essa possibilidade, vale a pena solicitar uma análise de viabilidade com base no consumo real das áreas comuns, os números costumam surpreender.