Entrevista com a psicóloga Dra. Priscila Valério

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Formada pela Universidade Estácio de Sá, no ano de 2012, Priscila Valério atuou em empresas na área de gestão de pessoas durante 15 anos, onde sempre buscou orientar de forma clara e concisa os colaboradores, vislumbrando um cenário corporativo saudável. Hoje a profissional possui consultório próprio, com atendimento especializado em psicologia clínica, esportiva e presta consultoria e ministra palestras na área comportamental e saúde do trabalhador, com abordagem cognitivo comportamental.

Após o término de sua graduação, ingressou para o MBA em Liderança e Gestão de Pessoas na UFRJ e atualmente está terminando a pós-graduação em Filosofia.

Valério também é atuante nas redes sociais, possuindo mais de 8 mil seguidores no Instagram, entregando conteúdos de relevância aos que acompanham o seu trabalho. Vale ressaltar que, assim como diversos profissionais, em decorrência da doença que nos acometeu no ano de 2020, Priscila passou a promover lives, utilizando-se dessa finalidade para disseminar o seu trabalho e sua experiência.

Em nosso bate-papo, abordamos assuntos como o comportamento corporativo e social num âmbito geral, pandemia de Covid-19 e, o comportamento da comunidade em meio à crise e o momento atual, onde convivemos com as incertezas a respeito do vírus, levando em consideração o negacionismo que ainda podemos perceber em muitas pessoas.

Protel – Dra. Prisicila, poderia se apresentar aos nossos leitores? 

Resposta:

Olá a todos! É com muita emoção que escrevo aos leitores do boletim informativo da Protel. Sou Psicóloga de formação, mas sobretudo de alma e, sigo aprendendo muito nas trocas enriquecedoras com os clientes que realizo trabalho. Sou apaixonada pela minha filha, esportes, natureza e artes. É um imenso prazer poder contar um pouco da minha trajetória construída com profissionalismo, alicerçada em disciplina, garra, perseverança, erros, renúncias, acertos e fundamentalmente, um profundo amor pela psicologia e vida humana.

Protel – O que a levou a escolher a profissão de Psicóloga?

Resposta:

Aos 17anos escolhi a minha profissão. Desde a infância sempre tive fascínio pelos livros, poesias e curiosidade a respeito dos dilemas entre os personagens.  Além disso, questionava à minha falecida mãe sobre certos comportamentos dos meus amigos e sobretudo, dos adultos e ela gentilmente me respondia dizendo que “cada um tem um jeito.” O tempo foi passando, e com ele, busquei leituras mais rebuscadas como Shakespeare, Machado de Assis, Sartre, Platão, Descartes, Nietzsche, mitologia grega e quando entrei na faculdade, Freud foi o primeiro autor que me despertaria um profundo desejo de seguir essa carreira desafiadora, que só me traz alegrias. Logo após os primeiros períodos da faculdade, passei a me interessar pela subjetividade humana; me aprofundando cada vez mais por temas como a liberdade, escolha, autenticidade e responsabilidade. Alguns dos questionamentos que fazia à minha mãe, começavam a ganhar vida; mais perguntas e algumas respostas. Anos mais tarde, viria a me aproximar pela abordagem cognitivo comportamental que utilizo em minha prática cotidiana. Mas, costumo dizer que a minha alma é existencialista (risos). Foi uma das escolhas mais assertivas que fiz em minha vida. Respiro psicologia todos os dias e não imagino a minha vida sem exercer a minha profissão com entrega e respeito ao ser humano.

Protel – Como a senhora analisa o comportamento social frente aos diversos problemas que o nosso País enfrenta, seja no âmbito político ou na saúde – tema em foco desde o início de 2020, quando nos deparamos com essa doença que nos atemoriza? 

Resposta:

Viver é perigoso no sentido de condição! Hoje você acorda muito feliz com o sol adentrando a janela; amanhã você amanhece, liga a TV e recebe a notícia da necessidade de isolamento social em várias partes do mundo. Isso tende a cair como uma bomba na cabeça do ser humano, pronta para explodir. O ser humano sob pressão e com poucas ou nenhuma opção de escolha, pode sucumbir facilmente. Vários gatilhos foram despertados na mente humana. O gatilho de escassez e o efeito manada na corrida para farmácias e supermercados, foi um comportamento marcante ao longo da pandemia para estocagem de alimentos, produtos de limpeza, higiene e álcool gel. Assim, como, a adaptação abrupta ao home office, junto com os filhos estudando on-line, o luto pelos entes queridos que se foram, aumento do índice de desemprego, o adeus à vida que deveria deixar para trás, levando apenas o que pudesse, e aceitar que uma nova realidade se aproximava e junto com ela o distanciamento social, as incertezas sobre a economia do país, crise política, crise de saúde,  ter que conviver com os membros da família que antes só víamos na hora de dormir, pois passávamos horas longe de casa. E além de todas essas variáveis, ter que começar a olhar para dentro e observar o que não daria mais para SER como sempre foi a própria vida. Libertar-se dos excessos, resgatar afetos, parar, respirar e compreender o que era realmente essencial para continuar a jornada. Muitos ainda estão nesse processo, alguns ascenderam e encontram um novo caminho em meio ao caos. Outros sucumbiram e apresentaram sintomas depressivos, ansiedade, estresse, burnout, ansiedade de desempenho, insônia, desregulação emocional dentre outras psicopatologias. As políticas públicas de saúde ainda estão distantes do ideal para dar suporte emocional aos profissionais de saúde e sobretudo à população. Há ótimos profissionais, mas o investimento ineficiente em saúde e o número de infectados pela Covid-19, juntamente com outras doenças não suportou as demandas. O colapso era previsível. A sociedade como um todo ainda engatinha como um bebê sobre a importância dos cuidados com a saúde emocional, todavia, vejo um movimento de ao menos refletir sobre a importância da saúde mental/emocional. Parece que a dor da pandemia vai deixar esse legado.

 Protel – Qual a sua análise quanto às empresas e seus colaboradores no que tange ao assunto acima; seja quando estávamos no pico, seja no atual cenário, onde esperançosos, percebemos uma luz no fim do túnel, em decorrência das vacinas? 

 Resposta:

As empresas de um modo geral não estavam preparadas para uma pandemia de impacto mundial.  As leis trabalhistas, o departamento jurídico, gestão de pessoas e de saúde encontram-se realizando ajustes com o “carro andando”. Há muito o que discutir sobre como lidar com o presenteísmo, absenteísmo e revisão do conceito de assiduidade nas empresas. As grandes empresas que já olhavam o home office como investimento em produtividade e bem estar do funcionário estão um passo à frente. O mundo dos negócios está acontecendo de forma diferente e os empresários que não se atentaram a isso, precisam se movimentar rápido. Vídeo conferência não é algo esporádico, tornou-se realidade! E ressalto o presenteísmo como um dos aspectos que vai aparecer com frequência no mercado corporativo. O colaborador que perdeu entes queridos, contraiu covid-19, adoeceu psiquicamente ou fisicamente em decorrência do cenário pandêmico pode apresentar sintomas de improdutividade, desânimo e comportamento que remetam à falta de perspectiva de vida. O cenário é delicado e um trabalho psicológico deve ser realizado com o time em convergência com outras medidas. É fundamental estar atento às necessidades individuais do time e revisão de estratégia do negócio, para que a empresa não perca o rumo nesse momento.

Protel – Fale-nos, a partir da mente humana, esse fenômeno do negacionismo ao Coronavírus:

 Resposta:

“Coronavírus?!” “Ninguém sabe ninguém viu.” Brincadeiras à parte, a negação é um mecanismo de defesa psicológico e tendemos lançar mão quando a situação é incômoda e não desejamos enfrentar. Um bom exemplo disso é o uso da máscara e a aglomeração. Alguns, acham que o uso da máscara é insignificante e sem utilidade. Bem como a aglomeração em bares e restaurantes, por achar injusto deixar de se divertir e ver os amigos. A verdade é que vivemos uma frustração coletiva e individual.  O coletivo se associa aos grandes eventos que foram cancelados como réveillon, carnaval, festa junina, dentre outros e, as frustrações individuais se relacionam com a proibição da aglomeração e isolamento social em flexibilização parcial. O ser humano não lida bem com o “não pode” e com o adiamento do prazer. Principalmente porquê vínhamos em uma espiral de vida agindo no imediatismo e “piloto automático”. De repente a frustração veio em efeito dominó. São muitas proibições para o ser humano organizar na mente e aceitar. Por isso, muitos ainda negam a gravidade da situação para justificar suas ações e minimizar a dor, expondo a si e o outro ao risco.

Protel – Agora, saindo um pouco desse cenário, gostaria que nos contasse como é trabalhar através das mídias sociais a Psicologia? O que pôde perceber do comportamento humano atrás da tela de um computador ou smartfone? 

Resposta:

Vejo que as mídias sociais vieram para somar e derrubar os muros do mundo acadêmico que antes era acessível para poucos. Eu iniciei nas redes há quase 5 anos com a página profissional de psicologia.  Foi uma adaptação natural às mudanças tecnológicas e globalização.  Desde a época da faculdade me projetei para buscar uma forma de estreitar vínculos e disseminar de forma ética a psicologia. Então, vi às redes como oportunidade de levar conhecimento científico ao cotidiano das pessoas em uma linguagem menos rebuscada, que é uma característica da psicologia. Foi um projeto ousado que iniciei sozinha. Hoje tenho uma pequena equipe, mas o conceito e os textos são preparados carinhosamente por mim. Estou sempre inovando, criando, fazendo mudanças e vendo a melhor maneira de falar com o meu público. É muito gratificante quando recebo mensagens dizendo que o meu vídeo e/ou texto ajudou alguém, que fez o dia da pessoa melhor e a interação que tenho com os seguidores. Pude perceber o impacto que uma mensagem tem através das redes. As pessoas esperam encontrar conteúdo agregador e que faça a diferença em suas vidas. Dá muito trabalho administrar às redes, mas foi um caminho que construí aos poucos e encaro como parte da minha missão, disseminar a ciência psicológica.

Protel – Como a senhora analisa essa procura incansável por likes e aceitação, onde muitos de nós trabalham incansavelmente em busca de notoriedade? 

Reposta:

A busca pela aceitação pode se tornar patológica quando o limite entre o que é saudável e o que faz mal é ultrapassado. Observo muita comparação nas redes sociais; distorções da realidade; julgamento moral; discurso de ódio e, essas temáticas podem ser porta de entrada para o adoecimento. Virtualmente, o mundo que muitos almejam e a pessoa que gostariam de ser, pode ser criado. Alguém que é tímido, por exemplo, pode ter 10.000 amigos virtuais e na vida real não manter contato com 5. Alguém que se sente inferior e possua problemas de aceitação, esse sentimento pode se intensificar nas redes. A busca por likes é uma maneira de dizer que está ali, que faz parte, não se sentir por fora dos acontecimentos. Há um território aberto e livre, onde cada um diz o que quiser; acusa, se defende, xinga humilha, exalta e elogia. Cruza meandros e põe a saúde mental em xeque de quem vive à espera do próximo like e se compara com uma vida aparente que não seja a sua. Algumas pessoas podem apresentar quadro ansioso, depressivo e baixa autoestima pela busca de reconhecimento do outro. Isso é muito sério, acontece principalmente entre os jovens, e os pais devem estar atentos para educar os filhos através do estabelecimento de limites, regras e muito diálogo sobre o mundo em que estão inseridos. Buscar ajuda profissional para orientação da família, sobre como lidar com as questões que permeiam a prudência quanto ao uso das redes, pode colaborar de forma significativa com a saúde emocional dos usuários e desmistificar a imagem superestimada sobre a busca de notoriedade.

Protel – Poderia nos contar um pouco do seu dia a dia no consultório; o que a levou a trabalhar, também, pelas mídias sociais, e a sua experiência com as lives em que participa?

Resposta:

A minha agenda é planejada de um mês para o outro e ao longo faço ajustes, remanejamento e possíveis encaixes. Com a chegada da pandemia, muitos pacientes passaram para o atendimento on-line, mas com a flexibilização parcial do isolamento social, alguns estão voltando para o consultório. O atendimento psicoterápico online, funciona muito bem para alguns pacientes, mas outros gostam de olhar nos olhos e ter contato pessoalmente. Observo que há demanda para ambos. Porém, a preferência ainda é presencial. Acolher as demandas de alguém é desafiador nos dias atuais. Ouço histórias diversificadas, e debruçar-se em uma linha para nortear e conduzir o trabalho é fundamental. A psicologia é riquíssima em ferramentas para diagnóstico, manejo de casos clínicos e desenvolvimento de habilidades comportamentais. Nas mídias encaro como um trabalho psicoeducativo e sem profundidade. Sempre alerto os seguidores que post e vídeo não são psicoterapia e/ou trabalho direcionado à individualidade ou grupos com critérios estabelecidos, como deve ser. Mas sempre busco entregar valor, dentro da proposta do que é redes sociais. É contato, ser acessível, interagir com o público e levar conhecimento. Ao longo de 2020 passei 6 meses realizando lives semanalmente, durante 1 hora, e foi uma experiência interessante. Fiz como se estivesse lecionando à distância, com um conteúdo mais denso. Hoje faço lives esporádicas. Tenho me dedicado a outros projetos, atendimentos, estudo de casos, escrever artigos; fui coautora de um livro e estou me debruçando no trabalho de conclusão da pós-graduação em filosofia.

Protel – O que a Psicologia pode trazer de benefícios para nós? Seja num curto, médio ou longo prazo? 

Resposta:

Em abrangência, a psicologia está envolvida em contextos diversificados. Presente nos negócios, escolas e universidades; economia, clínicas, hospitais, tecnologia, comunicação, hábitos, convivência, bem-estar etc. Não há mágica ou “coelho da cartola” para tirar, a mudança deve partir de um querer individual para ser alguém melhor e sair do estado de apatia, caminho obscurecido, infelicidade, apequenamento e ter mais lucidez sobre às próprias construções na vida. Querer é o começo, pois mudar é trabalhoso, envolve investimento de energia, renúncias, rupturas, fazer diferente, sair da zona de conforto e deixar para trás quem sempre foi. Isso é muito difícil para o ser humano. Gostamos de previsibilidade, rotina, sentimento de conforto. Mudar é desconfortável, mas quem persiste colhe os frutos a médio e longo prazo na própria vida: projetos pessoais, negócios, relacionamento e, é ressonante na vida daqueles que convive. Observo uma diferença imensa entre pessoas e grupos que realizam trabalhos de Psicoterapia e/ou consultoria psicológica e os que ainda não tiveram acesso a um trabalho direcionado nesse aspecto.

Protel – Para finalizar a nossa entrevista, deixe uma mensagem para o nosso público, visando o ano de 2021.

Resposta:

2021 é o ano de recomeços. Pegue o essencial que trouxe de 2020 e reconstrua a partir dos recursos que tenha em mãos. Caso não tenha, peça emprestado, busque ajuda, ajude, não se isole. Em uma pandemia que trouxe tantas transformações para o mundo, vai sobreviver quem se adaptar e se reinventar. Vivemos uma imprevisibilidade em muitos aspectos, e isso torna o ser humano vulnerável! Viva o hoje, abrace hoje, seja mais afetuoso hoje, faça planejamentos de curto prazo para não se frustrar, caso haja mudanças pelo caminho. O mundo não vai acabar, mas ele mudou faz tempo e aceitar isso é a maneira mais inteligente de continuar! Siga em frente, por você, pela sua família e pelos que se foram! Aproveite esse momento para resgatar o que se perdeu e se fazer novo em um mundo de mudanças rápidas, onde o tempo não volta e desapegar do passado é a melhor maneira de prosseguir. Há oportunidades no caos, mas é preciso tirar o véu do desespero humano para enxergar.

Um abraço carinhoso.

Priscila Valério – CRP: 5/44811

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